
Sabe quando os teus pais dizem que a juventude de hoje está perdida, como se esquecessem o auê de “sex, drugs & rock’n roll” dos anos 60 e 70, época da juventude deles? Ou as vovózinhas que falam “na minha época, só casando” mas esquecem de ressaltar que se casavam aos 14 anos e tinham uma penca de filhos (a minha teve 11, 1 a cada 2 anos)? Não precisa nem ir muito longe, nós mesmos vivemos a repetir que nós tivemos a melhor infância de todas e, nessa hora, ninguém lembra quão breguinhas nós fomos, né? O que eu quero dizer é que a gente tende a salientar o lado bom do que passou e não volta mais, simplesmente porquê não volta mais, portanto é incontestável.
Choque cultural.
É isso!
Quando submetido a condicões diferentes das quais está habituado, você irá se apegar ao que passou, mascarando todos os aspectos ruins e exaltando as partes boas, vai sentir saudade do que nem existiu, mas tudo bem, está valendo, já que a memória é sua e você faz com ela o que quiser. Agora continua comigo e imagina o que acontece quando você vai morar em outro país, em outro continente, em outro hemisfério, com outro clima, com história completamente diferente, portanto comportamento ABSURDAMENTE diferente do seu.
Chegou até aqui? Pois é, choque cultural elevado a milionésima potência, prazer em conhecê-lo!
Foi por isso que eu vesti um patriotismo exacerbado e, apesar de identificar perfeitamente os benefícios do estilo de vida escandinava, senti (sinto) muita falta do meu país, aí tratei de achar pontos negativos nas coisa boas da Suécia, virei o jogo e pronto: o Brasil ganhou. Tudo lá tinha mais cor que aqui (e tem mesmo, poxa), mais tempero, mais vida, mais amores. Deve ser por isso também que eu fiquei tão decepcionada e agora estou aqui escrevendo esse post, meio amargurado, de idéias desconexas.
Hoje eu fui tomar um cafézinho com um brasileiro que chegou aqui há pouco tempo, ele está sendo transferido pra cá e eu me prontifiquei a encontrá-lo pra contar um pouco sobre as minhas impressões do lugar… quem sabe ajudá-lo de alguma forma a se adaptar, porque na minha súbita “xenofobia às avessas”, o fato de ele ser brasileiro o tornava a pessoa mais legal de todos os tempos pra sempre num raio de 100 quilômetros, amém!
Tomei na cara!
O que posso dizer? A impressão que tive é de que ele não conseguia me enxergar na sua frente, literalmente. Tinha o olhar perdido, não esboçava nenhuma emoção, frio tal qual um cubo de gelo.
Durante a nossa conversa ELE me deu dicas sobre como se adaptar a Estocolmo, ELE me contou como é o comportamento das pessoas aqui, ELE me disse o quão fácil é pra estrangeiros conseguirem empregos falando apenas inglês e eu, que estava tão surpresa com o comportamento dele, preferi me calar, mesmo sabendo por A + B que não é bem assim.
Não foi nada de tão sério assim, eu sei, mas serviu pra me lembrar que toda generalizacão é burra. Eu me enchi de expectativas por ele ser brasileiro e deu no que deu, enquanto isso, não consigo me lembrar de uma só vez em que um sueco (que é taxado como povo ”frio”) tenha feito com que eu me sentisse tão insignificante tal qual o cocô do cavalo do bandido, quanto este meu “patrício” fez.
E tem mais, a cereja na pontinha do sorvete foi quando ele me contou que já morou fora por um tempo, e não teve dificuldades de se adaptar, que o difícil mesmo é a readaptação, porque quando você mora em outro país, você muda muito… aí volta pro Brasil e percebe que as pessoas pararam no tempo ¬¬
Olha, eu acho sim que quando se viaja pra outro país você aprende muitas coisas, muda em muitos sentidos, mas o fato de você ter tido essa oportunidade não te faz melhor do que ninguém, repito: NINGUÉM.
Diferente dele, o meu maior receio, é voltar pra casa e ver que as coisas não estão ali no lugarzinho em que eu as deixei, e eu sei de antemão que não estarão. Só nos ultimos 7 meses, meus amigos já mudaram de emprego, de profissão, de casa, de cidade, de namorada, a minha família cresceu, pintaram o meu prédio, teve gente que casou, teve gente que decidiu não falar mais comigo, a novela das 8 terminou e eu nem soube que fim levou o vilão.
Eu tenho pavoooor de voltar pra casa e não pertencer, e não ter sobre o que falar, considerando que eu vou ter perdido as notícias de 1 ano inteiro. Medo que as pessoas me evitem, achando que eu só sei conversar sobre minha experiência no exterior… medo de ser que nem esse cara.
Morar fora do país muda a gente mesmo, “…pero perder la ternura jamás”
Comentários em: "Hay que endurecer, pero perder la ternura jamás" (3)
Peninha.. não sei nem seu nome… mas achei superlegaltd isso… entrei aqui pelo Google procurando essa frase certa do Che.. tinha certeza q “HAY Q ..LA TERNURA JAMÁS”, só que cismaram em botar “hay q…pero jamas perder..” não era assim q Che falou.. então foi assim q te encontrei.. Amava o Che tmbm.. Feliz estadia ai.. tmbm já morei fora, mas aqui por perto..en Latinoamerica Aí deve ser dose… mas td desasfio é válido e enriquece a alma.. Volte com seu bauzinho cheio! Bj
verdade, che falou assim mesmo “Hay que endurecer, pero perder la ternura jamás” muito legal
Tudo a ver o que disse. Identifiquei-me muito com tuas palavras. Sucesso!